Há lugares que se gravam em nós como uma memória viva. Lugares que se tornam parte do coração. O Pontifício Colégio Português, em Roma, é um desses lugares. Entrei por aquelas portas em 2004, como jovem diácono, cheio de sonhos e de receios. Recordo a dificuldade dos primeiros tempos, sobretudo ao ler o Evangelho em italiano nas Eucaristias, num contexto novo, exigente, mas também inspirador. Tudo era diferente: a língua, a cidade, o ritmo de vida. Mas, com o tempo, descobri que ali estava uma verdadeira casa.
No ano seguinte, fui ordenado sacerdote. Ainda trago no coração o momento em que, ao regressar a Roma os meus colegas do Colégio e da Universidade Gregoriana me saudaram com alegria e amizade. Percebi que a vocação não se vive isoladamente, mas é partilhada, celebrada e alimentada na comunhão. Roma tornou-se mais do que o lugar dos meus estudos. Era o lugar de crescimento da minha fé e onde a missão começou a ganhar corpo.
Os primeiros anos de padre foram vividos entre aulas e a vida comunitária do Colégio Português. Cada dia trazia consigo o desafio do estudo, a beleza da oração e a força da fraternidade. Era ali que o cansaço se transformava em alegria, que o diálogo com colegas de diferentes dioceses se tornava fonte de inspiração, e que as dificuldades se venciam com o apoio silencioso de quem caminhava ao nosso lado. O Colégio era, verdadeiramente, uma escola de humanidade e de comunhão.
Recordo ainda os dias marcantes que Roma nos oferecia. Ficará para sempre na minha memória os últimos meses de vida de São João Paulo II, o seu sofrimento sereno e a sua despedida, que marcaram profundamente a minha fé. Pouco depois, a eleição do Papa Bento XVI e as diversas celebrações em que participei fizeram-me experimentar o pulsar da Igreja verdadeiramente católica. O Colégio era o lugar onde rezávamos juntos, partilhávamos reflexões e aprendíamos, na vida concreta, o significado da Igreja universal.
Hoje, ao celebrar o 125º aniversário do Colégio Português, revivo tudo o que ali aprendi e recebi. Foi casa, escola e família. Foi o lugar onde cresci como pessoa e como sacerdote, onde a vocação se consolidou no diálogo entre o estudo e a vida, entre o silêncio e a partilha. Roma ensinou-me muito, mas o Colégio ensinou-me o essencial: o valor da amizade e da comunhão que permanecem para sempre.
P. Giselo Andrade
Diocese do Funchal
Diocese do Funchal
Foto: Giselo Andrade – Arquivo Pessoal, anos de 2006-2010



