V Domingo do Tempo Comum

V Domingo do Tempo Comum

Estimados irmãos e irmãs, «não me apresentei com sublimidade de linguagem ou de sabedoria a anunciar-vos o mistério de Deus. Pensei que, entre vós, não devia saber nada senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado». É este o modo com que o apóstolo S. Paulo se dirige à Igreja em Corinto e que, a partir da sua proclamação na liturgia deste Domingo, me faz compreender o modo como vos poderei partilhar convosco algumas pontos que poder-vos-ão ajudar na reflexão da Palavra de Deus que hoje escutámos. Todo o mistério da incarnação do Verbo e da vida de Cristo é um convite a ultrapassarmos os nossos critérios, as nossas lógicas e as nossas exiguidades. A provar isso, recordo a liturgia do passado Domingo a qual, celebrando a apresentação do Senhor no Templo, nos relata como o velho Simeão, ao olhar para a simplicidade e fragilidade de um menino trazido no colo de sua mãe, o toma em seus braços e o identifica como «Luz para se revelar às nações», completando-se assim a vida daquele homem crente que, tendo posto os olhos em Cristo, reconhece que viu a Salvação que é oferecida a todos os povos. O assombro e escândalo que a humanidade testemunha diante da fragilidade da infância de Jesus, deste Deus que visita o Seu Povo, é o mesmo assombro e escândalo da humanidade diante deste Deus que faz da Cruz o lugar da vitória, da Vida e do Amor. É diante destas realidades que o homem crente, e de um modo concreto cada um de nós, reage consternado ao peso e à exigência das palavras do Evangelho de hoje, onde o Senhor manifesta a realidade do que somos. A Luz revela-nos que somos luz, e a Vida desvela-nos que somos sal nesta vida na terra.

Mas coloca-se a questão: mas a Luz não é o Senhor? E a Vida não está n’Ele? Pois bem, é precisamente a partir deste ponto que podemos compreender o que o Senhor nos quererá indicar. Não somos luz por nós próprios nem temos a capacidade de estarmos na origem da ignição da luz que somos. Somos luz na Luz! Portanto, para sermos verdadeiramente luz, temos de nos confrontar com a pura e crua realidade do que realmente é a nossa existência, partindo do princípio que não somos autossuficientes na nossa origem, que a nossa ignição carece de uma fonte de combustão, que transmitimos a luz que recebemos e que somos no mundo a luz que revela a Luz às nações. Do mesmo modo, se somos sal da terra é importante perceber esta dimensão ontológica que o Senhor imprime na realidade do que somos e de quem somos. Sobre as caraterísticas do sal, as nossas irmãs muito melhor nos poderiam explicar a sua importância. Ainda assim, permiti que vos recorde as duas missões do sal: conservar e salgar. Como tal, o sal que somos chamados a ser obriga-nos a conservar em nós este desejo ardente de viver em Cristo, de conservar em nosso peito o dom da fé que Ele nos outorgou pelo batismo, a conservar e a conservar-nos numa estreita união e intimidade de amor com o Senhor, evitando que se deteriore o tesouro que portamos em vasos de barro. Tal como Jesus diz no Evangelho, «se o sal perder a força, não serve para nada». Portanto, na medida em que somos sal que conserva é que também podemos ser sal que salga.

Tal como nos refere o Concílio (GS 9), é neste mundo «simultaneamente poderoso e débil, capaz do melhor e do pior, tendo patente diante de si o caminho da liberdade ou da servidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio» que compreendemos a extensa missão a que somos chamados enquanto luz e enquanto sal. Se, por um lado, sabemos que é na Luz que seremos luz, é importante perceber que, por outro lado, o Senhor nos chama a agir enquanto luz, tal como o Profeta Isaías nos ajuda hoje a concretizar: «se tirares do meio de ti a opressão, os gestos de ameaça e as palavras ofensivas, se deres do teu pão ao faminto e matares a fome ao indigente, a tua luz brilhará na escuridão e a tua noite será como o meio-dia»(Is. 58,10). É certo que, na vida discreta a que somos chamados nestes anos em Roma, ser luz do mundo e sal da terra parece-nos uma missão difícil. No entanto, este poderá ser o tempo favorável para que ouçamos os conselhos que nos deixa o grande pregador português Padre António Vieira num dos seus sermões: «Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há-de fazer, é lançá-lo fora como inútil para que seja pisado de todos. Quem se atrevera a dizer tal cousa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça que o pregador que ensina e faz o que deve, assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra ou com a vida prega o contrário». É certo que somos luz e sal, mas para que possamos iluminar e salgar, é necessário que algo se consuma: a luz resulta da combustão de algo, e o sal necessita morrer e perder as suas propriedades para salgar. Deste modo, peçamos neste Domingo, que Maria, nossa Mãe, interceda por nós para que, primeiramente, nos deixemos consumir por amor para que seja o Amor a iluminar e a salgar a vida do mundo.

(Pe. Ricardo Cardoso)