Traduzir o sopro do Espírito em caminho para Cristo

Traduzir o sopro do Espírito em caminho para Cristo

 

A comunidade do Pontifício Colégio Português teve a alegria de receber D. Carlos Azevedo este domingo para celebrar connosco a eucaristia. Juntos agradecemos a Deus a presença do Papa Francisco em Portugal no centenário das aparições de Fátima e a canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto. E rezámos para que estas graças nos fortaleçam para seguir e servir Jesus que é caminho, verdade e vida na comunidade eclesial. 

Publicamos em seguida a homilia. O título é da nossa responsabilidade. 

 

 

Leituras: Act 6, 1-7; Sal 33 (34), 1-2. 4-5. 18-19; 1 Pedro 2, 4-9; Jo 14, 1-12

 

 

              Colégio Português, 14-05-2017

 

Ao dar graças a Deus pelo centenário das maravilhas ocorridas no Cova da Iria e nas vidas de três crianças e tendo viva a celebração do papa Francisco com a multidão em Fátima, escutamos esta Palavra pascal.

O que fazer para que Cristo continue a ser acolhido pela comunidade como vivo e ressuscitado? Como assegurar a continuidade do serviço do Redentor nas malhas da história contemporânea?

Os sinais da presença de Deus, os sinais da presença de Cristo, os sinais da presença do Espirito, os sinais da presença de Maria na nossa vida, na vida da comunidade cristã, são pobres e humildes. Por isso os pequenos do Reino são os mais disponíveis para os acolher. Em Fátima a mensagem foi captada através do filtro humano de crianças simples. Jacinta, Francisco e Lúcia receberam, naquela hora dramática da história, a assistência do Espírito de Deus à humanidade. São visões proféticas finalizadas a comunicar uma mensagem divina à Igreja. Trata-se de apropriar-se da salvação já totalmente realizada pelo Crucificado e ressuscitado para o momento concreto, para a situação real vivida em Portugal e no mundo. Tantos comentários e interpretações caíram em catadupa sobre o evento Fátima, nestes últimos dias. Haverá algo a reter? Mostra-se a distância entre religiosidade popular e teologia, entre crença e fé cristã evangélica, extremam-se posições entre fundamentalismo aparicionista e redução do evento a construções clericais, revela-se o atraso de uma pedagogia pastoral em ordem a um crescimento espiritual, acolhedor seja dos afetos seja da razão.

Basta-nos que a Igreja tenha reconhecido origem divina, intervenção salvífica do Espírito Santo nas visões interiores e visões imaginativas dos pastorinhos. As crianças de Aljustrel procuraram “traduzir” o sopro do Espirito, as imagens e palavras interiores, não físicas mas reais, que viveram, com as suas faculdades mentais, volitivas e sensoriais. O “toque” do Espírito permitiu as crianças darem conta de um mundo que escapa aos sentidos; a presença da vida glorificada, não retida no espaço e no tempo.

A obra vivificante do Espírito Santo e a maternidade universal de Maria conjugam-se, como disse são João Paulo II na visita de 1982, para dar vida, para renovar a Igreja na fidelidade a Jesus e transformar a história da humanidade pelo olhar de Deus.

A dinâmica oblativa do viver de São Francisco e Santa Jacinta Marto, entregando renúncias e sofrimentos, completa na carne da humanidade o que falta para viver plenamente unidos aos sentimentos com que Cristo se entregou (Col. 1,24). Estas crianças sofreram como Jesus, obedientes a Deus e compassivas e solidárias com os outros: papa, pecadores, sofredores, pobres…

Realmente, caros irmãos e irmãs, o centro desta celebração está na profunda formação espiritual da comunidade, na sua conversão essencial. Perguntamos que caminho seguir diante da diferença dos tempos, dos desafios enormes da cultura contemporânea?

O pedido simples de Filipe é feito hoje por tantos: mostra-nos o Pai. Os peregrinos, na multiplicidade das suas motivações, no sangrar da sua alma e até dos seus pés, na busca de consolação para tantas feridas, na gratidão das lágrimas por dons acolhidos, manifestam que a questão do transcendente não se apagou. Falar-lhes do nosso Deus, do Deus de Jesus, lançando como Maria para Cristo, para a unidade entre Cristo e o Pai é um serviço exigente de uma pedagogia pastoral que agarre nestes diversos graus de busca para os conduzir à visão cristã de Deus, seja no calor e abraço da multidão, seja no regaço do silêncio que procura sentido. Maria, pela Assunção, está presente para facilitar o seguimento de Cristo em cada tempo.

Este tempo pascal ajuda-nos a solidificar esta fé na pessoa de Cristo, a descobrir por dentro a missão da Igreja. Cristo durante a vida mostrou sempre com o seu agir e viver a unidade com o Pai. Os seus milagres são sinal da força de Deus. O seu perdão misericordioso é sinal da bondade do Pai. Os seus conflitos são fruto da luta entre os interesses de Deus e os egoísmos humanos. Se isto foi o essencial da sua vida, agora que está para partir faz o resumo do essencial.

A Igreja apenas quer ser sinal, na sua condição humilde, de Cristo caminho, verdade e vida. Sabemos que conhecer a Deus não é estudá-lo como objeto externo. Deus não está fora de nós. Conhecer Deus é fazer a experiência, entrar em relação, contemplar a ação de Deus na vida, na história da humanidade. É assim que Cristo faz caminho: é revelando no concreto da existência como é bom, como é grande, o Deus que nos propõe. Ele regressa agora ao Pai, depois de ter passado pelo seio de Maria e pelo ventre da terra, de fazer entre nós a experiência humana até ao fim.

Quem permite que prossiga o anúncio deste caminho novo para as pessoas deste tempo? Quem continua os sinais de Cristo para que entremos na experiência do Deus amor? É o Espírito Santo. Ele concede dons a cada um. Se estes dons forem oferecidos aos outros como fizeram Francisco e Jacinta, renovam Cristo. A comunidade cristã crescia, como diz S. Lucas nos Atos. Aumentava a expansão da Palavra de Deus: “obedeciam à fé”. Hoje começa de novo a ser assim. O número dos discípulos cresce, ainda que diminua o número de frequentadores de missa, o número de servidores da Igreja cresce, ainda que diminua o número de padres. Cada cristão começa a assumir mais a tarefa de ser pedra viva, cântico novo. A Igreja é sinal que permite ter acesso ao Pai por Cristo no Espírito. Temos de cantar esta fé: uma fé viva na pessoa de Jesus ressuscitado. Só ele nos atira sempre para a frente da vida e da verdade. Cumpre-nos a tarefa de descobrir os caminhos, de inventar as estruturas para que Cristo seja caminho.

Todos somos sacerdotes desta via a abrir. Em Jesus foi inaugurado o sacerdócio existencial. Todos constituímos um sacerdócio santo, ou um sacerdócio comum real e não apenas "espiritual", que nos habilita para aceder imediatamente a Deus, anunciar a sua Palavra, oferecer sacrifícios espirituais, participar ativa, consciente e responsavelmente na liturgia e participar nas tribulações de Cristo. A liturgia que todos celebramos, é sacrifício espiritual. Alimenta-nos para mais intensa e verdadeiramente, na vida cumprirmos a vontade do Pai.

 Como nas primeiras comunidades cristãs importa repartir tarefas, para que a comunidade cresça. Hoje, todos nós, presbíteros, diáconos, religiosos e religiosas, cristãos e cristãs, somos chamados a repensar a pastoral das nossas comunidades, a descobrir o verdadeiro lugar de cada um e de cada uma e a compartilhar os diversos serviços e ministérios, de acordo com a nossa vocação específica. Todos formamos um sacerdócio real, uma nação santa, um povo adquirido por Deus. Em Jerusalém, segundo os Atos, o número dos discípulos aumentava consideravelmente, por causa do bom testemunho da comunidade cristã. Quando tal não ocorre somos nós que estamos em questão.

Os pastorinhos profetas escutaram o que o Espirito diz à Igreja para a conduzir a uma vida coerente com o que Cristo pede em cada tempo pelo seu Espírito. Eles apresentam-se como três faces do único diamante do mistério de Cristo. Maria é instrumento eficaz do Espírito para comunicar e transformar cristãmente as crianças. Há salvação para a humanidade atribulada e complexa do nosso tempo, no sim dito de coração a Cristo, como fez Santa Maria na vida inteira. Maria - e nós com ela - rezamos no Magnificat: a força do Altíssimo atravessa a nossa debilidade crente, grandes coisas faz Deus nos pequenos do Reino. Obedeçamos ao Pai! E a Igreja será caminho novo e limpo, transparente ao Espírito de Cristo que está vivo, aqui e hoje.

 

                        + D. Carlos Azevedo