O bom Pastor

O bom Pastor

 

 

 

 

 

 

 

 

Leituras: Act 2,14a.36-41; Sl 22(23). 1-3a.3b-4.5.6; 1Pe 2,20b-25; Jo 10,1-10

 

De todas as imagens com que Jesus se autodenonima, nos famosos «egw eimi» (Eu sou) do Evangelho de S. João, a do Pastor é aquele que provavelmente apresenta maiores ressonâncias bíblicas e que mais faz eco do quotidiano do povo israelita. De facto, Israel desde sempre foi um povo de pastores: Abel, Moisés, Abraão, Isaac, Jacob, etc… Estes tinham como função alimentar, dar de beber, proteger, curar, procurar as perdidas, guardar o rebanho nos apriscos – imagética que ajuda a compreender o título de Jesus.

A partir desta categoria, com a instituição da monarquia, surge a época reis-pastores da Bíblia (assinalados com unção divina), e David como protótipo (várias são essas referências nos salmos). Mas muitas vezes estes «pastores» abandonaram o rebanho, e alimentaram-se das ovelhas, em vez de as alimentar. Vários são os profetas a condenar essa mesma realidade (Isaías, Ezequiel, Zacarias, etc)

Começa então a surgir a ideia de  DEUS-PASTOR – Deus como o Pastor de Israel (Sl 80 - «Pastor de Israel, escutai»). Acentua-se com o exílio a ideia de voltar a ser um só rebanho com um só pastor, e vai crescendo a ideia de que o futuro Messias será um pastor

É assim que Jesus surge como o Pastor do Novo Povo de Deus, presença do DEUS-PASTOR: que procura e salva a ovelha perdida, que alimenta o rebanho, que tem para com  ele sentimentos de misericórdia. Jesus é o Bom Pastor, e único Pastor, e Bom como adjectivo que qualifica a Sua acção em oposição aos maus pastores do passado.

Com efeito, nunca no Novo Testamento o termo pastor é aplicado aos apóstolos e discípulos. Em Jo 21, Jesus diz a Pedro para apascentar as ovelhas; em 1Pe diz-se aos presbíteros que «apascentem o rebanho de Deus». O mesmo diz Paulo em Ef 4. Mas sempre no sentido de conduzir, cuidar. PASTOR há só um, Cristo, e a Sua acção junto do povo, o rebanho, deve ser o modelo inspirador da acção da Igreja, ou seja, da acção PASTORAL. Como testemunhas qualificadas da fé e actuando em nome da Igreja, o segredo da nossa missão (sacerdotal) consiste em «encarnar»/actualizar HOJE este cap. 10 do Evangelho de João, com os seguintes critérios:

  • - Aprender a reconhecer a Voz do Pastor (mas também a das ovelhas) – saber captar a voz de Deus no mundo (isso exige tempo – para rezar, para escutar a voz implorante do mundo, para saber calar as nossas «vozes» pessoais);
  • - Chamar cada um pelo nome (pastoral do contacto, do encontro pessoal, e não da superficialidade) – conhecer verdadeiramente, entrar na intimidade;
  • - Arriscar sair para fora (para as periferias), porque se confia no Pastor (como refere o salmo 23) e não na segurança cómoda e inerte dos limites do aprisco (da igreja, da sacristia). É Jesus que abre a porta para uma Igreja em saída («Ide»);
  • - Saber caminhar, fazer-se peregrino com. O testemunho arrebata, transmite segurança e confiança, mas na solidariedade de quem não se esconde. Precisamos de deixar que Jesus caminhe à frente, enquanto nós sentimos o «cheiro da ovelha»;
  • - Dar vida e abrir a porta (sermos facilitadores da graça, canais da vida divina).

Que o Bom Pastor nos inspire a sermos uma Igreja verdadeiramente PASTORAL, que vive a compaixão do Bom Pastor e abre a porta a todos aqueles que nela quiserem entrar.

 

                       Pe. David Palatino